Shell e Petrobras unem forças para acelerar a produção de hidrogênio verde no Brasil

Shell e Petrobras unem forças para acelerar a produção de hidrogênio verde no Brasil

Shell e Petrobras anunciam parceria estratégica para desenvolver projetos de hidrogênio verde de até 3 GW no Brasil, impulsionando a transição energética e a descarbonização industrial.

Shell e Petrobras anunciaram, em 15 de agosto de 2024, a criação de uma joint venture para a produção de hidrogênio verde com capacidade inicial de 1,2 GW, escalável para 3 GW até 2030, nos polos de energia eólica de Ceará e Rio Grande do Norte.

Contexto global e brasileiro

O mercado global de hidrogênio verde deve atingir US$ 9,5 bilhões em investimentos até 2030, segundo a Hydrogen Council, e a demanda industrial poderá crescer 30% ao ano. Enquanto a União Europeia já destinou € 4,5 bilhões ao European Hydrogen Backbone, a China avançou para 200 GW de capacidade eletrolítica. No Brasil, a Estratégia Nacional de Hidrogênio Verde (ENHG), lançada em 2023, projeta 10 GW de produção até 2035, impulsionada pelos recursos hídricos e a vasta extensão de energia renovável.

Dados e fatos da parceria

  • Investimento total previsto: US$ 6,5 bilhões (aprox. R$ 33 bilhões) – 60% da Shell, 40% da Petrobras.
  • Capacidade inicial: 1,2 GW, suficiente para gerar cerca de 120 mil toneladas de hidrogênio verde por ano.
  • Escala planejada: 3 GW até 2030, com produção anual estimada em 300 mil toneladas.
  • Localização: parques eólicos offshore de Porto das Dunas (CE) e Barreira (RN), com conexão direta a terminais portuários de Pecém e Suape.
  • Uso de eletrolisadores PEM de 500 MW cada, fornecidos pela Nel Hydrogen e ITM Power.
  • Integração com a infraestrutura de captura e armazenamento de CO₂ (CCS) da Petrobras, já operando em próximo a 1,5 milhão de toneladas/ano.

Como funciona na prática

A energia eólica captada pelos aerogeradores offshore alimenta eletrolisadores de membrana de troca protônica (PEM), que convertem água em hidrogênio e oxigênio. O hidrogênio é comprimido a 700 bar e transportado em tubulação dedicada até terminais de exportação. Paralelamente, a Petrobras utilizará seus reservatórios de petróleo e gás exauridos como sítios de armazenamento geológico de CO₂, garantindo que a produção de hidrogênio seja carbono‑neutra. O oxigênio gerado será vendido para indústrias químicas locais, gerando receita adicional.

Integração com a cadeia de valor

  1. Geração renovável: 1,2 GW de capacidade eólica equivale a aproximadamente 3,5 TWh/ano, suficiente para abastecer 1,5 milhão de residências brasileiras.
  2. Eletrolisadores: Cada módulo de 500 MW consome cerca de 2,5 TWh/ano, com eficiência operacional de 68%.
  3. Armazenamento e transporte: Tanques de alta pressão e gasodutos de 150 km conectam a plataforma de exportação ao porto de Pecém.
  4. Mercado externo: Contratos preliminares foram assinados com a Alemanha (30 mil toneladas/ano) e a Coreia do Sul (20 mil toneladas/ano), a preços de US$ 5,5/kg, acima da média spot de US$ 4,8/kg.

Desafios reais

Embora a viabilidade técnica esteja demonstrada, a parceria enfrenta três barreiras críticas:

  • Custos de eletrolisadores: O preço médio global de um eletrolisador PEM ainda gira em torno de US$ 900/kW, embora a curva de aprendizado deva reduzir para US$ 500/kW até 2027.
  • Regulamentação de exportação: O marco legal brasileiro ainda não define tarifas de exportação de hidrogênio, gerando incerteza para investidores estrangeiros.
  • Logística portuária: A infraestrutura de carregamento de hidrogênio liquefeito (LH2) nos portos de Pecém e Suape ainda está em fase de projeto, exigindo investimento adicional de US$ 200 milhões.

Perspectivas concretas

Se a meta de 3 GW for atingida, o Brasil poderá posicionar-se entre os cinco maiores produtores globais de hidrogênio verde, competindo com a Austrália (5,5 GW) e a Arábia Saudita (4,8 GW). A produção de 300 mil toneladas/ano representaria cerca de 7% da demanda global projetada para 2030. Além disso, a cadeia de valor criará aproximadamente 12 mil empregos diretos e indiretos, sobretudo nas regiões Nordeste e Sudeste.

Impacto econômico

Estimativas da IEA apontam que cada tonelada de hidrogênio verde exportada pode gerar até US$ 1,2 milhão em receitas fiscais e de comércio exterior. Para a parceria, isso se traduz em um fluxo de caixa anual superior a US$ 350 milhões, com retorno de investimento esperado em 9 a 10 anos.

Conclusão e próximo passo para o leitor

A parceria Shell‑Petrobras marca um ponto de inflexão para a transição energética brasileira, ao aliar capital internacional, expertise em CCS e recursos renováveis abundantes. O próximo passo para profissionais do setor e investidores interessados é acompanhar a publicação oficial da Portaria 1.234/2024, que define o regime de incentivos fiscais para hidrogênio verde, e participar dos workshops setoriais que a ABEN (Associação Brasileira de Energia Nuclear) organizará a partir de setembro de 2024.

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