Brasil pode transformar o 'powershoring' em vantagem competitiva com energia limpa, aponta estudo

Brasil pode transformar o 'powershoring' em vantagem competitiva com energia limpa, aponta estudo

Estudo revela que o Brasil tem condições de liderar o 'powershoring' ao combinar abundante energia renovável e incentivos fiscais, atraindo fábricas de alta tecnologia.

Lide

O Brasil tem potencial para se tornar um polo de powershoring – produção descentralizada alimentada por energia limpa – ao combinar 173 GW de capacidade renovável já instalada, incentivos fiscais de até 25% e custos de geração que chegam a US$ 30/MWh, segundo estudo publicado em junho de 2026 pela Associação Brasileira de Energia Renovável (ABER).

Contexto global

Nos últimos cinco anos, a tendência de "nearshoring" evoluiu para powershoring, onde empresas escolhem locais de produção não apenas pela proximidade ao mercado, mas também pela disponibilidade de energia limpa a preço competitivo. Na Europa, a Alemanha já investiu € 12 bilhões em hidrogênio verde para abastecer fábricas de semicondutores, enquanto a Coreia do Sul anunciou um plano de US$ 8 bilhões para alimentar data centers com energia solar e eólica.

Capacidade e custos no Brasil

O Sistema Interligado Nacional (SIN) registra 173 GW de capacidade renovável – 73 GW de eólica, 57 GW de solar fotovoltaica, 20 GW de biomassa e 23 GW de hidroeletricidade convencional. Em 2025, o custo médio de geração eólica no Nordeste caiu para US$ 28/MWh, e o solar para US$ 30/MWh, valores inferiores aos US$ 45/MWh praticados nos EUA e aos € 50/MWh da Europa.

  • Investimento privado em energia renovável atingiu R$ 85 bilhões em 2024.
  • O Brasil exportou 14,3 TWh de energia limpa em 2025, equivalente a US$ 1,2 bilhão.

Como funciona na prática

Empresas de semicondutores, baterias e data centers precisam de energia estável e de baixa emissão de carbono para atender a requisitos de ESG. No modelo proposto, um parque industrial em Alagoas poderia ser alimentado por um conjunto híbrido de 300 MW de eólica (Parque Eólico de Piauí) e 150 MW de solar (Usina Solar de Pernambuco), interligado a um sistema de armazenamento de 200 MWh de baterias de lítio. Essa combinação garantiria disponibilidade de energia acima de 95% durante 24 horas, reduzindo a necessidade de geradores a diesel.

Desafios reais

Apesar do cenário favorável, o Brasil enfrenta três barreiras principais:

  1. Infraestrutura de transmissão: Mais de 30% da capacidade renovável está concentrada no Nordeste, enquanto a maioria dos grandes centros industriais está no Sudeste. O custo de expansão da rede (aprox. R$ 120 bilhões até 2030) ainda é um gargalo.
  2. Regulação de tarifas: O modelo de leilões de energia ainda privilegia contratos de longo prazo, dificultando acordos de compra direta (PPA) para projetos de powershoring.
  3. Capacitação de mão‑de‑obra: A indústria de energia renovável requer engenheiros especializados; o Brasil tem menos de 5.000 profissionais certificados em sistemas de armazenamento em escala.

Perspectivas concretas

O estudo projeta que, se o Brasil acelerar a construção de linhas de transmissão de alta tensão (HVDC) e simplificar a aprovação de PPAs, pode atrair US$ 45 bilhões em investimentos industriais até 2035, gerando 250 mil empregos diretos. As principais oportunidades identificadas são:

  • Fabricação de módulos fotovoltaicos: demanda estimada de 2,8 GW de capacidade instalada até 2030.
  • Produção de baterias de lítio‑enxofre: mercado global projetado em US$ 150 bilhões em 2030, com necessidade de 12 GW de energia limpa para operação.
  • Data centers verdes: 40% da capacidade de data centers globais deverá ser alimentada por energia renovável até 2030, segundo a International Data Corporation (IDC).

Conclusão e próximo passo

Para que o Brasil efetivamente capitalize o potencial de powershoring, os tomadores de decisão precisam focar em três ações imediatas: (i) aprovar a agenda de expansão de transmissão de 30 GW até 2028; (ii) instituir um regime de incentivos fiscais escaláveis para PPAs de energia limpa acima de 100 MW; e (iii) criar um programa nacional de formação de profissionais em energia renovável, com meta de 10 mil certificados até 2030. Cada passo reduz a distância entre a abundância de recursos naturais do país e a atração de cadeias produtivas de alta tecnologia, transformando energia limpa em vantagem competitiva.

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