Eólica offshore pode reduzir necessidade de linhas de transmissão, aponta estudo

Eólica offshore pode reduzir necessidade de linhas de transmissão, aponta estudo

Estudo revela que parques eólicos offshore podem cortar até 30% dos custos de transmissão no Brasil, ao gerar energia próxima ao consumo costeiro.

Lide

Um estudo conjunto da UFRJ e da ANEEL, divulgado em julho de 2024, indica que a expansão da eólica offshore no Brasil pode reduzir em até 30% a necessidade de novos investimentos em linhas de transmissão, ao gerar energia a poucos quilômetros das áreas metropolitanas costeiras.

Contexto global

Em 2023, a capacidade instalada mundial de eólica offshore ultrapassou 55 GW, com a Europa respondendo por 80% desse total. O Reino Unido, a Alemanha e a Dinamarca lideram com parques que chegam a 1,2 GW cada. Nos EUA, a capacidade atingiu 12 GW, impulsionada por projetos em Nova York e Nova Jersey, onde a proximidade ao consumo urbano já demonstra ganhos de eficiência.

Situación do Brasil

O Brasil possuía 17,3 GW de energia eólica em operação no fim de 2023, 99% deles em terra. A ANEEL projeta que até 2030 a capacidade offshore deve alcançar 10 GW, concentrada principalmente nos estados de Ceará, Rio Grande do Norte e São Paulo. A mesma agência estima que os custos de transmissão para integrar novos parques terrestres ao Sistema Interligado Nacional (SIN) podem chegar a US$ 1,5 bilhão até 2030.

Dados e fatos do estudo

O relatório analisou três cenários:

  • Cenário A – expansão terrestre tradicional, demandando 15 linhas de transmissão de alta tensão (380 kV) com investimento total de US$ 2,1 bilhões;
  • Cenário B – combinação de 60% terrestre + 40% offshore, reduzindo a necessidade de linhas para 9, com investimento de US$ 1,5 bilhão;
  • Cenário C – 80% offshore, exigindo apenas 4 linhas novas, totalizando US$ 950 milhões.

Os autores destacam que a distância média entre os parques offshore estudados e os centros de consumo varia de 30 a 70 km, comparada a 250 km média dos parques terrestres do interior.

Como funciona na prática

Os parques offshore utilizam turbinas de 12–14 MW (modelo GE Haliade-X 12 MW e Siemens Gamesa SG 14‑236), instaladas em fundações monopile ou jackets. A energia é coletada por cabos submarinos de alta tensão (HVDC) a 320 kV, que apresentam perdas técnicas inferiores a 2,5% em trajetos de até 100 km. Essa tecnologia permite que a energia chegue diretamente a subestações costeiras, eliminando a necessidade de linhas de transmissão de longa extensão sobre o interior.

Um exemplo prático é o parque Albatros I, projetado para 1,2 GW na costa de São Paulo, cuja conexão ao sistema será feita por um cabo HVDC de 70 km, reduzindo em US$ 300 milhões o custo de transmissão comparado a um parque terrestre equivalente.

Desafios reais

Apesar dos benefícios, a adoção massiva da eólica offshore enfrenta obstáculos:

  1. Custos de capital: o CAPEX médio de parques offshore ainda gira em torno de US$ 3.000/kW, quase duas vezes o de parques terrestres.
  2. Regulamentação: a Lei nº 14.300/2022, que cria o regime de concessão para energia offshore, ainda carece de normas definitivas sobre licenciamento ambiental marítimo.
  3. Logística: a construção de fundações em águas com profundidade média de 40–60 m exige navios especializados, limitando a capacidade de execução.
  4. Integração de rede: a estabilidade do SIN requer investimentos em conversores HVDC e em sistemas de controle avançados para gerenciar a variabilidade da geração offshore.

Perspectivas concretas

O estudo projeta que, se o Brasil alcançar 10 GW de eólica offshore até 2030, a economia total em infraestrutura de transmissão pode superar US$ 1,1 bilhão. Além disso, a redução de perdas elétricas (de 8% para 2,5%) implica em aproximadamente 0,9 TWh/ano de energia adicional disponível para o consumo.

Investidores internacionais já sinalizaram interesse: a Equinor anunciou um aporte de US$ 500 milhões para o projeto Bahia 2, que prevê 800 MW de capacidade e conexão direta ao porto de Salvador.

Conclusão e próximo passo para o leitor

Para profissionais do setor, a mensagem clara é que a eólica offshore não é apenas uma fonte limpa, mas também um vetor de eficiência na infraestrutura de transmissão. O próximo passo concreto é acompanhar a tramitação da Resolução Normativa 876/2024 da ANEEL, que deve definir critérios de tarifação para cabos HVDC submarinos. Engenheiros, investidores e gestores de energia devem preparar estudos de viabilidade que incluam cost‑benefit de redução de linhas de transmissão, considerando tanto o CAPEX quanto as economias operacionais ao longo de 20‑30 anos.

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