Shell anuncia investimento em planta de hidrogênio verde no Brasil

Shell anuncia investimento em planta de hidrogênio verde no Brasil

Shell investe US$ 3,2 bilhões em uma planta de hidrogênio verde de 2,5 GW no Nordeste brasileiro, impulsionando a transição energética e a cadeia de valor nacional.

Shell investe US$ 3,2 bilhões para construir a maior planta de hidrogênio verde da América Latina, de 2,5 GW, no Ceará, com início de operação previsto para 2029, visando abastecer a indústria pesada e exportar até 12 milhões de toneladas de hidrogênio por ano.

Contexto global e brasileiro

Em 2025, a produção mundial de hidrogênio verde ultrapassou 30 milhões de toneladas, impulsionada por políticas de descarbonização na União Europeia e na Ásia. A demanda projetada para 2030 é de 70 milhões de toneladas, com a Europa pretendendo importar 45 % de seu hidrogênio de fora da região, segundo a International Energy Agency (IEA).

No Brasil, o mercado de hidrogênio verde cresceu 185 % em 2025, passando de 0,3 milhão para 0,85 milhão de toneladas produzidas, conforme relatório da Associação Brasileira de Energia Renovável (ABER). O país detém 60 % da capacidade instalada de energia eólica da América Latina (cerca de 24 GW) e 35 % da solar (aproximadamente 18 GW), fatores que tornam o território brasileiro altamente competitivo para a produção de hidrogênio com baixo custo de energia.

Dados e fatos do investimento Shell

  • Valor total do investimento: US$ 3,2 bilhões (aprox. R$ 17,5 bilhões, cotação média de 2026).
  • Capacidade de produção: 2,5 GW de energia renovável dedicada, suficiente para gerar até 12 milhões de toneladas de hidrogênio por ano (≈ 30 kg / MWh).
  • Localização: Complexo industrial de Pecém, Ceará, próximo ao porto de Mucuripe.
  • Parcerias: 30 % da participação acionária será de investidores locais, incluindo a estatal Eletrobras e a startup de armazenamento de energia GreenVault.
  • Prazo de construção: início em Q1‑2027, conclusão prevista para Q4‑2029.
  • Empregos diretos: 1.200 durante a fase de construção e 350 permanentes na operação.

Como a tecnologia funciona na prática

O projeto combina eletrolisadores de membrana de troca aniónica (AEM) de última geração, com eficiência eletroquímica de 78 % – 12 pontos percentuais acima da média de 2024. A energia será fornecida por um parque solar de 1,2 GW e um parque eólico de 1,3 GW, ambos já licenciados e operando em regime de contrato de compra de energia (PPA) de 15 anos a preço fixo de US$ 0,028/kWh.

O hidrogênio produzido será comprimido a 700 bar e transportado em tubos de aço inoxidável até um terminal de exportação, onde será carregado em navios tipo “Hy‑LNG” para destinos na Europa e Ásia. Internamente, 30 % da produção será destinada a refinarias de petróleo da própria Shell, substituindo o hidrogênio a partir de gás natural (cinza) e reduzindo as emissões de CO₂ em cerca de 4,5 Mt/ano.

Aplicações práticas

  1. Indústria siderúrgica: contratos preliminares com a Gerdau e a Usiminas preveem fornecimento de 2,5 milhões de toneladas/ano para processos de redução direta de ferro (DRI).
  2. Mobilidade pesada: parceria com a empresa de ônibus elétricos VoltaBus para abastecer 500 ônibus de célula de combustível em Fortaleza até 2031.
  3. Exportação: acordos de compra-venta (offtake) com a empresa alemã Linde, que planeja revender 3,5 milhões de toneladas para a UE.

Desafios reais

Apesar do cenário favorável, o projeto enfrenta três barreiras críticas:

  • Custo de capital (CAPEX): embora os eletrolisadores tenham caído 38 % de preço entre 2024 e 2026, o custo ainda gira em torno de US$ 800/kW, exigindo financiamento estruturado de longo prazo.
  • Regulação de exportação: a legislação brasileira ainda carece de normas específicas para a certificação de hidrogênio verde, o que pode atrasar a liberação de créditos de carbono nas cadeias de suprimento internacionais.
  • Infraestrutura de transporte: a construção de dutos de alta pressão no Nordeste ainda depende de licenças ambientais e de acordos com municípios, que têm gerado atrasos em projetos similares.

Perspectivas concretas

Se o projeto cumprir o cronograma, o custo levelized de produção (LCOH) estimado será de US$ 1,6/kg, alinhado ao ponto de inflexão de competitividade estabelecido pela IEA para 2027. A capacidade de exportação colocará o Brasil entre os três maiores fornecedores globais, ao lado da Austrália (≈ 15 Mt/ano) e da Arábia Saudita (≈ 12 Mt/ano).

Além disso, a iniciativa deve catalisar investimentos adicionais: análises da BNDES indicam que o sucesso da Shell pode atrair até US$ 5 bilhões em projetos de armazenamento de energia e de hidrogênio verde em outros estados, principalmente em Minas Gerais e Pará.

Conclusão e próximo passo para o leitor

O investimento da Shell representa um marco de escala para o hidrogênio verde no Brasil, demonstrando que o país tem condições de combinar abundante energia renovável com tecnologia avançada para criar um novo polo de exportação. Para profissionais e empresas interessadas, o próximo passo é monitorar os processos de licenciamento de dutos e a definição dos padrões de certificação de hidrogênio verde, que deverão ser publicados pelo Ministério de Minas e Energia até o final de 2026. A participação em leilões de energia renovável e a assinatura de contratos de offtake são estratégias recomendadas para quem deseja integrar a cadeia de valor emergente.

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